Onde rolam as cascatas

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A morte da vida que mata

A morte da vida que mata
Por Valeria Gurgel
28 de outubro de 2016

           A morte sempre tem sido um tema visto pelo âmbito da ambiguidade. Como uma controvérsia que ao mesmo tempo em que aterroriza, angustia, traumatiza, apavora, também desperta  certo fascínio e  curiosidade, pois que  a única certeza dessa vida, ainda que inadmissível por muitos, é a morte. Assim, mesmo que o medo pelo desconhecimento e vulnerabilidade do tema que engloba a vida diante da morte exista, aí mora a curiosidade indomável por essa suscetibilidade  de  uma complexidade  heterogênica, quando o tema é estudado e pesquisado por filósofos, religiosos, céticos, povos de todas as origens e de todas as culturas, de todos os tempos. E desde a criação do mundo e dos seres viventes, surge a morte, que passa a ser enxergada como o fim de uma etapa, de uma jornada, cumprimento de uma missão, castigo, fechamento de um ciclo evolutivo, ou o extermínio do  próprio corpo físico, da matéria densa, do invólucro da energia cósmica que forma a vida e até um desfragmentar do etéreo para os que interpretam a energia também como uma matéria sutilmente cósmica. São as formas curiosas e diferentes de se analisar o tema, mas sempre acolhendo  o respeito pelo receio ao desconhecido ao incompreendido, ao que foge do controle humano. Talvez, seja necessário desmitificarmos o real sentido da vida para não mais precisar aterrorizar se com a morte.
Mas e se enxergássemos a morte por um aspecto analítico da morte da vida que mata?
A morte vista de uma forma efêmera e distinta acontecendo a cada fração de segundos como certa renovação celular, energética e cósmica?
Como ensinamento, lapidação da ideia grotesca que alimenta a vida que se mata aos poucos, acreditando estar vivendo para um dia morrer?
E a partir daí perceber o comprometimento que ambas temem entre si, ao ponto de numa dicotomia entre a vida e a morte não poder prever quando a vida mata a morte ou quando a morte mata a vida?
Pois que se morre vivendo a cada dia e muitos estão se matando a todo instante sem perceber! Quando o deserto do egoísmo nutre a solidão de areia desenhando formas irreais do viver. Amores sem essência e valores sem consistência.
A morte poderia ser nada mais nada menos que a morte que a vida mata!
Então porque essa utopia que afirma que a morte sempre chega de forma estupidamente repentina em nossas vidas? Ou que nos pega de surpresa? Ou até que nunca estaremos preparados para encará-la de frente?
Aquele que mais viveu seria então o que permaneceu longos anos sobre a Terra?
Ou talvez o que menos viveu  fosse aquele que temendo a morte tentou evita-la de forma infantil, e covarde, enterrando sonhos, dormindo oportunidades, conservando ideias em cérebros congelados para não deteriorar os sentimentos? Quantos nos já foram dados em laços de liberdade e quantas algemas o destino permitiu pela ânsia de ser feliz?
A morte só mata a vida que não se deixa viver!Que não se permite burilar o oleiro da consciência!
Pedras brutas se deslocam da inércia quando a morte sacode o deserto da ignorância! E levanta a poeira que os ventos da inconsciência exalam, contaminando consciências letárgicas de vidas em decomposição, meros cadáveres ambulantes circulam pelas academias do saber em busca de um sentido real que os façam ressurgir do abismo da incoerência de saber viver.
Valéria Gurgel
Enviado por Valéria Gurgel em 29/10/2016
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